
"De uma certa forma, trata-se de um conceito muito diferente para mim, esse de cuidar tanto assim de um CD" assegura Mandy Moore. "Nunca tive tanto envolvimento assim em todos os detalhes, nunca foi como desta vez". Pois é assim, cheia de orgulho, que Moore fala do seu novo álbum, Wild Hope, que ela escreveu em conjunto com Lori McKenna, The Weepies, Rachael Yamagata e mais uma pá de outros compositores queridaços dos críticos. Gravado no Allaire Studios e produzido por John Alagia, o homem por detrás do trabalho de estréia de John Mayer em 2001 Room for Squares, Wild Hope está para sair do forno, pelo selo The Firm Music.
Sob um certo sentido, o álbum de Moore é uma coleção de músicas – produzidas e compiladas durante um longo espaço de tempo em um projeto em que a cantora pop investiu uma quantidade enorme de energia, convicção, atenção e coração – no melhor estilo do sempre agitado mercado da música pop.
Mas para a cantora de 22 anos, nascida em New Hampshire e que cresceu em Orlando, esse lançamento em especial, e o modo como tudo foi executado, representa uma coisa que é, com certeza, novidade. E quando ela discute o projeto, dá para ver orgulho, alívio e contentamento em suas palavras. "Acho que algumas das coisas que fiz no passado têm seu lugar e espaço" avisa Moore, se referindo aos seus álbuns de 1999 e de 2002, durante os últimos suspiros das bandas teen da década de 1990. Mas hoje em dia, o foco de atenção de Moore é só mesmo o alinhamento dela com o tipo de música que ela ama e no qual ela põe fé.
E é ela quem continua: "Minha fase de fazer pop para adolescentes foi uma grande base de lançamento da minha carreira, e eu não sou tipo que se arrepende de nada. Mas naquela época, eles me davam as músicas e me mandavam para o estúdio com aquilo e eu ia lá e gravava. Mas acho que, à medida que ficamos mais velhos, o seu gosto musical muda. E essa mudança não aparecer na música com a qual você está envolvida é mesmo de partir o coração".
Em geral, Moore conversa de modo empolgado, mas, nesse momento, ela balança a cabeça demonstrando o tamanho da frustração que vinha acumulando, e completa: "Aquilo simplesmente não parecia mais certo para mim".
Durante os últimos dois anos, Mandy Moore bateu o pé para garantir que tudo estivesse certo para ela. E um bom exemplo disso é a sua ligação com a The Firm. A companhia de Los Angeles que administra sua carreira tem uma parceria inovadora com a EMI Music e que surgiu para tentar reestruturar esse mercado, com um acordo em que a artista tem mais vantagens em termos de royalties.
A sua maneira, Moore começou a bater nesta tecla em 2003, quando lançou Coverage, um CD singular em que ela trabalhou com os melhores compositores da história do pop anglo-americano – gente como Joni Mitchell e Joan Armatrading – inserindo ali o seu jovem ponto de vista.
"Coverage marcou o começo desse esforço de colocar minha verdadeira personalidade para fora, para todo mundo" explica Moore. "Eu estava completamente apaixonada pela música e queria encantar a moçada que não dava conta de perceber como Joe Jackson e Todd Rundgren são demais". Mas agora, para seu novo álbum – que conta com a colaboração de James Renald e Chantal Kreviazuk-- Moore estava determinada a escrever seu próprio material. E isso acabou virando uma demanda inegociável que a cantora fez a si mesma e a todas as outras pessoas que se propuseram a trabalhar com ela. "Não queria de jeito algum mudar os planos que tinha para esse trabalho", sentencia Moore. "Ele era importante demais para mim".
O projeto começou a ganhar forma na cabeça de Moore, junto com a sua crescente carreira como atriz. Ela passou a aparecer em filmes como Um Amor para Recordar (2002), ou A Galera do Mal (2005) – um filme que recebeu pencas de elogios da crítica – e ainda o filme de Paul Weitz, Tudo pela Fama (2006). Tudo isso colocou Moore em contato com gente como John Turturro, Michael Stipe, Susan Sarandon, Billy Crudup, e vários outros. E essas experiências e relacionamentos começaram a encorajá-la a colocar para fora a sua ligação vital com o universo pop.
"Foi tudo fruto das escolhas que vinha fazendo em termos de filme" revela Moore. "Como atriz, você tem bastante controle sobre os filmes que faz: se não quiser nunca fazer um filme de ação, não é obrigado a fazer. Se não quer fazer cenas de nudez, não precisa fazer. Tudo é resolvido caso a caso, de acordo com cada projeto. Para mim, esse processo se encaixou direitinho com a música. Não posso fazer um filme com Diane Keaton, Mia Farrow, Billy Crudup ou Tom Wilkinson e depois voltar e gravar um disco em que eu, enquanto pessoa criativa, estou ausente".
Para Moore, isso não era nada mais que uma questão de lógica pura. "Eu sabia que queria trabalhar com Lori McKenna, Rachael Yamagata e o The Weepies. Era isso que esse CD precisava ser e isso é também, em parte, a razão de termos levado dois anos para concluir o CD. Mas foi um processo muito interessante e que valeu demais. Minha cabeça ainda está até zonza".
No novo álbum de Moore ela canta – com um tom mais claro e convicto que nunca – melodias cheias de detalhes e de uma lucidez para lá de bonita e que revelam aspectos essenciais de como é ser – como ela mesma coloca -- "uma jovem tentando entender a vida e achar o seu lugar no mundo em relação ao amor, aos relacionamentos e ainda as decepções". Moore compôs faixas como "All Good Things" e "Looking Forward to Looking Back" com o The Weepies, em uma parceria que ela guarda com carinho, tanto em termos pessoais quanto em termos musicais. Outras músicas, como "Most of Me", ela escreveu com McKenna, "Ladies Choice" foi parceria com Yamagata enquanto "Gardenia", uma balada de cortar a respiração, foi composta a quatro mãos com Chantal Kreviazuk. E tudo porque todas essas pessoas estavam já produzindo músicas que Moore simplesmente adorava.
"Com esses artistas" diz ela, "foi uma questão de descobrir a música deles e perguntar a mim mesma 'por que isso não é a melhor coisa jamais criada desde a invenção do pão de forma? Por que Rachael Yamagata não toca direto no rádio? É sério mesmo que o The Weepies nunca teve um CD entre os dez mais tocados? E aquela voz fantástica, e aquele poder de contar uma história de Lori McKenna? Para mim, isto estava tudo ali, acessível, e tudo era maravilhosamente bonito e criativo".
O maior diferencial de Wild Hope, como Moore nos conta, é que desta vez o que ela canta é dela mesmo. Aliás, agora Mandy Moore fala com conhecimento de causa sobre o processo de composição, como uma verdadeira profissional do ramo: "Não há nada melhor que terminar uma música contente com o resultado, sabendo que você conseguiu acertar na mão e que ela está mesmo passando aquilo que você queria passar".
O CD abre com o impacto de "Extraordinary", que é outra colaboração dela com o The Weepies e que foi a última música a ser produzida "É mesmo uma declaração ousada", afirma a cantora. "Acho que a faixa é tão vulnerável quanto todas as outras, mas é preciso ter coragem para escrever uma música como essa e não ficar com vergonha. Eu sou tímida e, muitas vezes, chego a ser mesmo introvertida, mas extraordinária é o que quero ser – todo dia".



